Terapia celular
Terapia CAR-T para Doenças Autoimunes: Lúpus, Esclerose Sistêmica e Miopatias
Lúpus, esclerose sistêmica e miopatias inflamatórias.
Resposta rápida
A terapia com células CAR-T anti-CD19 em doenças autoimunes é um tratamento experimental. Consiste em uma infusão única de linfócitos T do próprio paciente, modificados em laboratório para eliminar células B. A hipótese em investigação é que a depleção profunda de células B permita ao sistema imune reconstituir um repertório sem os clones autorreativos, produzindo remissão prolongada sem imunossupressão de manutenção. No Brasil não há aprovação regulatória para indicação autoimune. O acesso ocorre exclusivamente dentro de ensaios clínicos aprovados por Comitê de Ética em Pesquisa e pela CONEP.
- O que é: terapia celular autóloga dirigida ao CD19, em infusão única, precedida de linfodepleção com fludarabina e ciclofosfamida.
- Doenças em estudo: lúpus eritematoso sistêmico e nefrite lúpica refratários, miopatias inflamatórias idiopáticas, esclerose sistêmica e síndrome antifosfolípide catastrófica.
- Evidência atual: série do Hospital Universitário de Erlangen com 15 pacientes, publicada no New England Journal of Medicine em 2024, com seguimento mediano de 15 meses.
- Disponibilidade no Brasil: nenhuma agência regulatória aprovou a indicação autoimune. Não existe compra, importação ou via judicial fora de protocolo de pesquisa.
- Autoria: Dr. Henrique Dalmolin, médico reumatologista, CRM-SP 211.167, RQE 98901. Investigador Principal de protocolos internacionais de terapia celular em doenças autoimunes.
Neste guia
- O que é a terapia CAR-T
- Diferença entre CAR-T em oncologia e em reumatologia
- Quais doenças autoimunes estão sendo estudadas
- O que os estudos mostraram até agora
- A terapia está disponível no Brasil?
- Quais são os riscos
- Quem pode se candidatar a um estudo
- Como funciona a avaliação no consultório
- Perguntas frequentes
- Na imprensa
- Referências
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O que é a terapia CAR-T?
CAR-T é a sigla para Chimeric Antigen Receptor T-Cell, ou linfócito T com receptor de antígeno quimérico. É uma terapia celular em que os linfócitos T do próprio paciente são coletados, modificados geneticamente para reconhecer um alvo específico e depois reinfundidos.
O processo tem quatro etapas:
- Coleta. Os linfócitos T são retirados por leucaférese.
- Modificação genética. As células recebem um receptor artificial dirigido a um alvo de superfície, habitualmente o CD19, presente em praticamente todo o espectro de maturação da célula B.
- Expansão. As células modificadas são multiplicadas. O tempo de manufatura varia conforme a plataforma utilizada no protocolo.
- Reinfusão. As células são devolvidas ao paciente após um esquema de linfodepleção, que nas séries publicadas em doenças autoimunes utilizou fludarabina e ciclofosfamida.
O diagnóstico de uma doença autoimune grave, como o lúpus eritematoso sistêmico, a esclerose sistêmica ou as miopatias inflamatórias, exige raciocínio clínico de alta complexidade. Quando as medicações convencionais e os imunobiológicos e terapias alvo-específicas não são suficientes para controlar a atividade da doença, o paciente entra em refratariedade. A terapia com células CAR-T é uma das abordagens sob investigação nesse cenário.

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Qual a diferença entre CAR-T em oncologia e em reumatologia?
O alvo celular é o mesmo, mas o objetivo é diferente. Em oncologia hematológica, as células CAR-T anti-CD19 eliminam células B malignas. Em doenças autoimunes, o alvo são as células B autorreativas que sustentam a produção de autoanticorpos.
A hipótese em investigação é que a depleção profunda de células B, incluindo compartimentos teciduais que terapias anti-CD20 como o rituximabe não alcançam de forma completa, permita que o sistema imune reconstitua um repertório sem as clonalidades autorreativas. Os grupos que estudam o tema descrevem isso como reconstituição imunológica, ou immune reset.
Essa é a diferença que interessa ao paciente refratário. O objetivo investigado é um efeito prolongado após uma única infusão, e não um tratamento de manutenção por tempo indeterminado. Se esse efeito se confirma e por quanto tempo se mantém é exatamente o que os estudos em andamento estão medindo.
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Quais doenças autoimunes estão sendo estudadas?
Os protocolos publicados até o momento concentram-se em quatro grupos.
| Doença | Perfil estudado | Desfecho medido nos estudos |
|---|---|---|
| Lúpus eritematoso sistêmico | Doença refratária, incluindo nefrite lúpica, sem resposta a imunossupressores convencionais e a terapias dirigidas a células B | Remissão pelos critérios DORIS, SLEDAI-2K, negativação de anti-dsDNA, normalização de complemento |
| Miopatias inflamatórias idiopáticas | Formas refratárias, com destaque para as que cursam com acometimento pulmonar e síndrome antissintetase | Resposta clínica maior pelos critérios ACR-EULAR, força muscular, enzimas musculares |
| Esclerose sistêmica | Doença difusa, particularmente casos com doença pulmonar intersticial progressiva | Índice de atividade EUSTAR, escore cutâneo de Rodnan modificado, função pulmonar |
| Síndrome antifosfolípide catastrófica e outras apresentações de alta gravidade | Casuísticas pequenas, sem série sistematizada | Controle de atividade e sobrevida, descritos caso a caso |
Para o cenário clínico que antecede a discussão de terapia celular, veja o guia sobre lúpus refratário e o que fazer quando o tratamento não controla.
Há investigação inicial em artrite reumatoide refratária e em outras condições mediadas por autoanticorpos, com menos dados publicados.
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O que os estudos mostraram até agora?
Os primeiros relatos vieram do grupo do Hospital Universitário de Erlangen, na Alemanha, liderado pelo Prof. Georg Schett. O primeiro caso, uma paciente com lúpus refratário, foi publicado no New England Journal of Medicine em 2021. A primeira série, com cinco pacientes com lúpus, saiu na Nature Medicine em 2022.
A publicação de referência até hoje é a série de acompanhamento publicada no New England Journal of Medicine em fevereiro de 2024. Os dados relatados foram os seguintes:
- 15 pacientes tratados: 8 com lúpus eritematoso sistêmico, 3 com miopatia inflamatória idiopática e 4 com esclerose sistêmica.
- Infusão única de células CAR-T anti-CD19, após linfodepleção com fludarabina e ciclofosfamida.
- Seguimento mediano de 15 meses, com variação de 4 a 29 meses.
- Duração média da aplasia de células B de 112 dias, com desvio padrão de 47 dias.
- Todos os pacientes com lúpus atingiram remissão pelos critérios DORIS.
- Todos os pacientes com miopatia inflamatória atingiram resposta clínica maior pelos critérios ACR-EULAR.
- Todos os pacientes com esclerose sistêmica apresentaram queda no índice de atividade EUSTAR.
- A terapia imunossupressora foi suspensa integralmente em todos os pacientes.
- Quanto à segurança, houve síndrome de liberação de citocinas grau 1 em 10 pacientes, um caso de grau 2, um caso de neurotoxicidade grau 1 e um caso de pneumonia que exigiu internação.
Duas ressalvas precisam ser ditas junto com o resultado.
A primeira é de tamanho amostral. O número de pacientes tratados no mundo ainda é pequeno e o tempo de seguimento é limitado. O que se sabe sobre durabilidade vem de um grupo reduzido de casos, sem grupo comparador randomizado.
A segunda é de seleção. Séries iniciais com resultado favorável selecionam pacientes. Os critérios de elegibilidade dos protocolos excluem comorbidades e gravidades que estão presentes na prática clínica cotidiana. Os resultados publicados não devem ser lidos como expectativa individual.
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A terapia CAR-T para doenças autoimunes está disponível no Brasil?
Não como tratamento aprovado. Até o momento nenhuma agência regulatória aprovou terapia CAR-T para indicação autoimune. O acesso existe apenas dentro de ensaios clínicos conduzidos em centros habilitados, com protocolo aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa e pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP).
Isso significa que não existe forma de comprar, importar ou obter a terapia por via judicial para doença autoimune fora de um estudo. Qualquer oferta nesse sentido deve ser tratada com desconfiança.
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Quais são os riscos da terapia CAR-T?
Os eventos adversos mais característicos são a síndrome de liberação de citocinas (CRS) e a neurotoxicidade associada a células efetoras imunes (ICANS). Nas séries publicadas em doenças autoimunes, ambos foram descritos como menos frequentes e menos graves do que na experiência oncológica, o que se atribui à menor carga de células-alvo.
Outros riscos relevantes:
- Citopenias prolongadas após a linfodepleção.
- Hipogamaglobulinemia por depleção de células B, com risco infeccioso e eventual necessidade de reposição de imunoglobulina.
- Infecções no período de reconstituição imune.
- Síndrome hemofagocítica associada a células efetoras imunes (IEC-HS), descrita em casos isolados e sob vigilância ativa nos programas em andamento.
- Toxicidade gonadal do esquema de linfodepleção, motivo pelo qual preservação de fertilidade entra na discussão antes do procedimento.
A vigilância de segurança em terapia celular é contínua. Programas de pesquisa podem ter critérios alterados ou ser temporariamente suspensos a partir de novos achados. Isso faz parte do desenho de uma terapia em fase de investigação.
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Quem pode se candidatar a um estudo de CAR-T?
Os critérios variam por protocolo. O perfil geral descrito nos estudos em andamento inclui diagnóstico confirmado de doença autoimune grave, doença ativa com acometimento de órgão-alvo, falha documentada a pelo menos duas linhas terapêuticas prévias e ausência de contraindicações como infecção ativa ou comprometimento cardíaco significativo.
A elegibilidade é definida pelo protocolo aprovado, não pelo médico assistente. A triagem é conduzida pela equipe do estudo e segue os canais formais do centro de pesquisa.
Pesquisa clínica no Brasil
A condução de ensaios clínicos com terapias celulares exige infraestrutura hospitalar especializada, aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa e conformidade com as normas regulatórias nacionais e internacionais, incluindo CONEP e ICH-GCP.
Atuo como Investigador Principal de protocolo internacional de Fase 2, duplo-cego, voltado à investigação da terapia CAR-T em doenças autoimunes refratárias, registrado no ClinicalTrials.gov. A participação em estudos clínicos é estritamente voluntária, segue critérios de elegibilidade definidos pelo protocolo aprovado pelo CEP, e o encaminhamento de pacientes ocorre exclusivamente por meio dos canais formais do estudo.
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Como funciona a avaliação no consultório
A consulta é uma avaliação clínica de doença autoimune refratária. O objetivo é reconstruir o histórico terapêutico, verificar se a refratariedade é real e discutir as opções disponíveis com base na evidência atual.
Refratariedade aparente é frequente e precisa ser investigada antes de qualquer discussão sobre terapia avançada. As causas mais comuns são dose ou tempo insuficientes da terapia anterior, aderência irregular, diagnóstico incompleto, e atividade de doença confundida com sequela ou com comorbidade. Identificar isso muda a conduta e evita expor o paciente a um caminho desnecessário.
Atendimento
Os atendimentos são realizados de forma exclusivamente particular, no consultório localizado na Avenida Ibirapuera, 2064, Moema, São Paulo/SP. Pacientes de outros estados são atendidos mediante agendamento prévio.
O manejo de doenças autoimunes complexas requer tempo e minúcia. Cada consulta é estruturada para uma análise aprofundada do histórico clínico e das opções terapêuticas disponíveis com base no estado atual da ciência.

Perguntas frequentes sobre CAR-T em doenças autoimunes
A terapia CAR-T cura o lúpus?
Não há base para afirmar cura. O que as séries publicadas descrevem é remissão sustentada sem medicação imunossupressora em pacientes acompanhados por período limitado. Nos dados de seguimento mais longos disponíveis, o acompanhamento mediano foi de 15 meses. Cura é uma afirmação que exige seguimento de anos e casuística maior. Quem usa essa palavra hoje está indo além do que os dados permitem.
Quanto tempo dura a remissão após a CAR-T?
Ainda não se sabe. Essa é justamente a pergunta que os estudos em andamento estão medindo. Nas séries publicadas, parte dos pacientes permaneceu sem imunossupressão por mais de dois anos, mas o número de pessoas com esse tempo de seguimento é pequeno.
Qual a diferença entre CAR-T e rituximabe?
O rituximabe é um anticorpo monoclonal dirigido ao CD20, administrado de forma repetida, e sua depleção de células B é parcial em tecidos como medula óssea, linfonodo e rim. A CAR-T é uma célula viva dirigida ao CD19, administrada em dose única, com capacidade de proliferar no organismo e atingir compartimentos teciduais. A diferença clínica em investigação está na profundidade da depleção e na possibilidade de remissão livre de medicação.
A CAR-T para doença autoimune está aprovada pela Anvisa?
Não. Existem produtos CAR-T aprovados no Brasil para indicações oncohematológicas, mas nenhum com indicação aprovada para doença autoimune. Usar um produto oncológico fora de indicação para doença reumatológica não é conduta amparada.
É possível comprar ou importar a terapia?
Não para indicação autoimune. Não existe via comercial, de importação ou judicial que resulte em acesso legítimo fora de um protocolo de pesquisa aprovado. Ofertas em sentido contrário devem ser tratadas como sinal de alerta.
Quanto tempo leva o processo, da coleta à infusão?
Depende da plataforma de manufatura definida pelo protocolo. Processos convencionais levam algumas semanas entre a leucaférese e a infusão. Plataformas mais recentes reduzem substancialmente esse intervalo. O paciente segue em tratamento de suporte durante todo o período.
Preciso ficar internado?
Sim. Os protocolos preveem internação no período da linfodepleção e da infusão, com monitorização para síndrome de liberação de citocinas e neurotoxicidade. O tempo de permanência varia conforme o protocolo e a evolução clínica.
Quem tem lúpus controlado com medicação deve considerar CAR-T?
Não. Os protocolos são desenhados para doença grave e refratária, com falha documentada a linhas prévias. Doença controlada com tratamento convencional não é cenário de indicação nem de elegibilidade.
Quais exames são necessários para avaliar elegibilidade?
A avaliação inicial revisa o diagnóstico e documenta atividade de doença e falha terapêutica. Isso costuma envolver autoanticorpos específicos da doença, complemento, marcadores inflamatórios, avaliação de função de órgão-alvo, imagem e, conforme o caso, biópsia. A lista definitiva de exames é determinada pelo protocolo, não pela consulta.
O que significa refratariedade real?
Significa doença que permanece ativa apesar de tratamento adequado em dose e em tempo, com aderência verificada e diagnóstico confirmado. Boa parte dos casos encaminhados como refratários não preenche esses requisitos. Identificar isso é a primeira etapa de qualquer avaliação séria, porque muda a conduta e evita um caminho desnecessário.
Agendamento
Converse com a concierge
Atendimento particular, com nota fiscal para reembolso.
Na imprensa
Em setembro de 2026, o Dr. Henrique Dalmolin assinou um artigo sobre terapia celular em doenças reumatológicas no portal da Jovem Pan: Terapia celular em doenças reumatológicas: por que nem todo paciente pode tratar. O texto explica por que o mecanismo da CAR-T difere do rituximabe, quais riscos o procedimento envolve e por que a indicação permanece restrita e ligada a pesquisa clínica.
Referências
- Müller F, Taubmann J, Bucci L, et al. CD19 CAR T-cell therapy in autoimmune disease: a case series with follow-up. N Engl J Med. 2024;390(8):687-700. PubMed
- Mackensen A, Müller F, Mougiakakos D, et al. Anti-CD19 CAR T cell therapy for refractory systemic lupus erythematosus. Nat Med. 2022;28(10):2124-2132. PubMed
- Mougiakakos D, Krönke G, Völkl S, et al. CD19-targeted CAR T cells in refractory systemic lupus erythematosus. N Engl J Med. 2021;385(6):567-569. PubMed
Sobre o autor
Dr. Henrique Helson Herter Dalmolin
CRM/SP 211.167 | RQE 98901
Médico reumatologista. Residência em Clínica Médica pelo Hospital de Clínicas da UFPR e em Reumatologia pelo HC-FMUSP. Professor na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Investigador Principal de protocolos internacionais de terapia celular em doenças autoimunes. Doutorando na Faculdade de Medicina da USP. Membro das comissões de Artrite Reumatoide, Biotecnologia e Doenças Raras da Sociedade Brasileira de Reumatologia.
ORCID | Currículo Lattes | Google Scholar
Conteúdo escrito e revisado por Dr. Henrique Dalmolin. Última revisão: setembro de 2026.
Aviso
Esta página tem caráter estritamente informativo e educativo. Não constitui oferta de tratamento, captação de participantes para pesquisa clínica, nem substitui a avaliação médica individualizada.
