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Síndrome de Sjögren é uma doença autoimune que ataca as glândulas de lágrima e saliva, e que vai além delas: fadiga, dor articular e, numa parcela dos pacientes, acometimento de pulmão, rim e nervos. É uma das doenças de diagnóstico mais atrasado da reumatologia, porque boca seca e olho seco recebem anos de tratamento sintomático antes de alguém perguntar por quê. A investigação combina medidas objetivas de secura, o anticorpo anti-Ro e, quando preciso, a biópsia de glândula salivar do lábio. O seguimento trata a secura e vigia as manifestações sistêmicas.
Nesta página
- A peregrinação típica até o diagnóstico
- Sinais que apontam para Sjögren
- Como o diagnóstico é confirmado
- O que a doença faz além da secura
- Tratamento e seguimento
- Perguntas frequentes
A peregrinação típica até o diagnóstico
O percurso clássico passa por três consultórios antes do reumatologista: o dentista trata as cáries de repetição, o oftalmologista prescreve o colírio lubrificante, o clínico atribui a fadiga à rotina. Cada um resolve o seu pedaço e ninguém soma as partes. Entre o primeiro sintoma e o diagnóstico, medem-se anos. Somar é o trabalho da reumatologia: secura persistente em dois sítios, com fadiga e dor articular, é uma doença até prova em contrário.
Sinais que apontam para Sjögren
- Olhos secos ou com sensação de areia por mais de três meses, com uso diário de colírio.
- Boca seca que obriga a beber água para engolir alimentos secos e cárie de repetição em adulto.
- Aumento das parótidas, as glândulas na frente das orelhas, repetido ou persistente.
- Fadiga desproporcional e dor articular sem inchaço evidente.
- FAN positivo ou fator reumatoide alto encontrado em investigação de outra queixa.
Como o diagnóstico é confirmado
A secura vira dado com dois exames simples: o teste de Schirmer, que mede a produção de lágrima com uma fita de papel, e o fluxo salivar. A sorologia central é o anti-Ro. Quando a clínica aponta e a sorologia nega, a biópsia de glândula salivar menor, colhida da parte interna do lábio em procedimento pequeno, é o exame de definição. O conjunto segue critérios classificatórios internacionais. Metade do diagnóstico é lembrar de pedir.
O que a doença faz além da secura
Sjögren é doença sistêmica com fachada de sintoma local. A fadiga é quase universal e costuma ser a queixa que mais pesa no dia a dia. Uma parcela dos pacientes desenvolve manifestações de órgão: artrite, doença pulmonar intersticial, acometimento renal, neuropatias e vasculite de pele. E existe um risco aumentado de linfoma das glândulas salivares, baixo em termos absolutos e concentrado em perfis identificáveis, que é exatamente o que o seguimento regular vigia. Parótida que cresce e não desce é sinal de avaliação imediata.
Tratamento e seguimento
A secura é tratada em três mãos: reumatologista, oftalmologista e dentista, com lubrificação, estimulantes de secreção e prevenção agressiva de cárie. As manifestações sistêmicas recebem tratamento próprio, da hidroxicloroquina para articulação e pele aos imunossupressores dirigidos ao órgão acometido. O seguimento tem duas metas: qualidade de vida hoje e vigilância dos desfechos que importam amanhã. Mulheres com anti-Ro que planejam engravidar têm um capítulo próprio de planejamento, discutido antes da concepção.
Se você tem secura crônica com exames alterados e nenhuma conclusão, veja a página de investigação de doenças autoimunes ou como funciona a segunda opinião.
Perguntas frequentes
Boca seca é sempre síndrome de Sjögren?
Não. Medicamentos são a causa mais comum de boca seca, incluindo antidepressivos, anti-histamínicos e diuréticos. Diabetes, respiração bucal e idade também entram na lista. O que aponta para Sjögren é a secura persistente por mais de três meses, em olhos e boca, com exames objetivos alterados.
Que exames confirmam a síndrome de Sjögren?
A combinação de secura medida de forma objetiva, com teste de Schirmer nos olhos e fluxo salivar, mais o anti-Ro. Quando a sorologia é negativa e a suspeita persiste, a biópsia de glândula salivar menor, feita no lábio, é o exame que define. FAN e fator reumatoide costumam estar presentes e reforçam, sem fechar sozinhos.
Anti-Ro positivo significa que tenho Sjögren?
Não sozinho. O anti-Ro aparece também no lúpus e em pessoas sem doença definida. O diagnóstico soma o anticorpo à secura objetiva e ao quadro clínico. E o anti-Ro tem uma implicação própria na gravidez, que deve ser conversada com o reumatologista antes da concepção.
Sjögren é só secura?
Não. É doença sistêmica. Fadiga e dor articular são quase universais, e uma parcela dos pacientes tem manifestações de órgão: artrite, acometimento pulmonar, renal, neurológico e das glândulas parótidas. O seguimento existe para tratar a secura e vigiar o resto.
Sjögren aumenta o risco de linfoma?
Aumenta, e esse é o motivo central do acompanhamento regular. O risco permanece baixo em números absolutos e concentra-se em perfis definidos, como aumento persistente de parótida e alterações laboratoriais específicas. Crescimento de glândula que não regride deve ser avaliado sem demora.
Quem tem Sjögren e anti-Ro pode engravidar?
Pode, com planejamento. O anti-Ro atravessa a placenta e, numa minoria pequena das gestações, pode afetar o sistema de condução do coração fetal. Por isso a gestação é programada, com medicação ajustada e monitorização fetal específica no período de risco. É conversa de pré-concepção, e não de descoberta na gravidez.
Qual é o tratamento da síndrome de Sjögren?
Duas frentes. A secura é tratada com medidas locais e estimulantes de secreção, em conjunto com oftalmologista e dentista, porque olho seco e cárie de repetição são consequências reais. As manifestações sistêmicas, quando existem, recebem tratamento imunomodulador dirigido ao órgão acometido, com hidroxicloroquina e imunossupressores conforme o quadro.
Referências
- Shiboski CH, Shiboski SC, Seror R, et al. 2016 American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism classification criteria for primary Sjögren’s syndrome. Annals of the Rheumatic Diseases, 2017.
- Ramos-Casals M, Brito-Zerón P, Bombardieri S, et al. EULAR recommendations for the management of Sjögren’s syndrome with topical and systemic therapies. Annals of the Rheumatic Diseases, 2020.
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Atendimento exclusivamente particular, na Avenida Ibirapuera, 2064, Moema, São Paulo/SP. Telemedicina para outros estados mediante agendamento. É emitida nota fiscal para solicitação de reembolso.
Dr. Henrique Dalmolin. CRM/SP 211.167, RQE 98901 Reumatologia. Professor da Santa Casa de São Paulo e Pesquisador Principal de estudos clínicos internacionais. Membro titular do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e do Hospital Vila Nova Star.
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