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Escores em reumatologia servem para medir atividade de doença, função e dano de forma reprodutível, e para permitir a estratégia de tratar por meta. Eles não fazem diagnóstico. Um escore alto em paciente sem doença inflamatória mede outra coisa, geralmente dor crônica, fibromialgia associada ou dano estrutural já estabelecido. Esta página reúne os instrumentos usados na prática, o que cada um mede, as faixas de corte e onde cada um falha.

Neste guia

Como ler um escore

Três categorias de instrumento respondem a perguntas diferentes e não se substituem.

Critérios de classificação, como os critérios EULAR/ACR de 2019 para lúpus ou os critérios ACR/EULAR de 2010 para artrite reumatoide, existem para padronizar populações de estudo. Não são critérios diagnósticos, e paciente que não pontua pode ter a doença.

Artrite reumatoide

Instrumento Composição Faixas de corte Limitação
DAS28-VHS Contagem de 28 articulações dolorosas e edemaciadas, VHS e avaliação global do paciente Remissão abaixo de 2,6. Baixa de 2,6 a 3,2. Moderada acima de 3,2 até 5,1. Alta acima de 5,1 Inclui provas de fase aguda e avaliação global, o que superestima atividade em quem tem dor crônica associada. Não avalia pés e tornozelos
DAS28-PCR Mesma estrutura, com PCR no lugar do VHS Tende a gerar valores menores. O corte de remissão usualmente proposto é abaixo de 2,4 Usar os cortes do DAS28-VHS no DAS28-PCR classifica como remissão quem ainda tem atividade
CDAI Articulações dolorosas e edemaciadas, avaliação global do paciente e do médico. Sem exame laboratorial. Escala de 0 a 76 Remissão até 2,8. Baixa até 10. Moderada até 22. Alta acima de 22 Não captura inflamação sistêmica sem sinovite evidente
SDAI Mesmos itens do CDAI mais PCR. Escala de 0 a 86 Remissão até 3,3. Baixa até 11. Moderada até 26. Alta acima de 26 Depende de coleta laboratorial no dia
Remissão booleana ACR/EULAR Critério dicotômico: articulações dolorosas, edemaciadas, PCR e avaliação global do paciente Todos os quatro itens em 1 ou menos. A revisão de 2022 flexibilizou a avaliação global para 2 ou menos Muito exigente. A avaliação global do paciente é o item que mais impede o alcance, frequentemente por dor não inflamatória
HAQ-DI Capacidade funcional em 20 itens de atividades diárias. Escala de 0 a 3 Quanto maior, pior a função. Acima de 1 indica limitação relevante Mede função, não inflamação. Permanece alterado com dano estabelecido
RAPID3 Apenas relatado pelo paciente: função, dor e avaliação global. Escala de 0 a 30 Quase remissão até 3. Baixa até 6. Moderada até 12. Alta acima de 12 Não substitui a contagem articular quando há dúvida sobre sinovite

Espondiloartrite axial

Instrumento Composição Faixas de corte Limitação
BASDAI Seis perguntas sobre fadiga, dor axial, dor periférica, entesite e rigidez matinal. Escala de 0 a 10 Valor igual ou acima de 4 caracteriza doença ativa Totalmente subjetivo. Sofre forte influência de fibromialgia associada
ASDAS-PCR Combina itens do BASDAI com PCR, com pesos definidos Inativa abaixo de 1,3. Baixa de 1,3 até menos de 2,1. Alta de 2,1 a 3,5. Muito alta acima de 3,5 Requer PCR. É o instrumento preferido para decisão terapêutica por incorporar medida objetiva
ASDAS, variação Diferença entre duas medidas Melhora clinicamente importante a partir de 1,1. Melhora maior a partir de 2,0 Exige medida basal registrada
BASFI Função em dez itens Escala de 0 a 10 Mede função, não atividade
BASMI Mobilidade axial medida ao exame físico: Schober, distância tragus-parede, rotação cervical, flexão lateral e distância intermaleolar Escala de 0 a 10 Reflete dano e rigidez estrutural, não inflamação atual

Artrite psoriásica

Instrumento Composição Faixas de corte Limitação
DAPSA Articulações dolorosas e edemaciadas em 66 e 68 pontos, dor, avaliação global do paciente e PCR Remissão até 4. Baixa de 5 a 14. Moderada de 15 a 28. Alta acima de 28 Cobre apenas o domínio articular periférico. Ignora pele, eixo axial, dactilite e entesite
MDA Sete critérios: articulações dolorosas, edemaciadas, PASI ou área corporal acometida, dor, avaliação global, HAQ e entesite Cinco dos sete critérios cumpridos. Atingir os sete define VLDA, atividade muito baixa Mistura domínios com pesos implícitos. Um paciente pode cumprir cinco itens com pele significativamente ativa
PASI Extensão e gravidade da psoríase cutânea. Escala de 0 a 72 PASI 75 e PASI 90 indicam melhora de 75 e 90 por cento em relação ao basal Pouco sensível em doença de pequena extensão mas de alto impacto, como couro cabeludo, unhas e região genital
LEI e SPARCC Índices de entesite por sítios palpados LEI avalia 6 sítios. SPARCC avalia 16 Dor à palpação de êntese ocorre também em fibromialgia, o que gera falso-positivo
LDI Índice de dactilite por circunferência e sensibilidade digital Comparação com o dedo contralateral Pouco usado fora de estudo

Lúpus eritematoso sistêmico

Instrumento Composição Faixas de corte ou definição Limitação
SLEDAI-2K 24 itens clínicos e laboratoriais em janela de 30 dias. Escala de 0 a 105 Valores de 6 ou mais costumam indicar atividade ao menos moderada Não captura melhora parcial dentro de um mesmo item. Itens graves e leves somam de forma desproporcional
SLEDAI-2K clínico Mesmo instrumento sem anti-DNA e complemento Usado nas definições de remissão Ignora atividade sorológica isolada, que ainda assim prediz reativação
BILAG Atividade por sistema orgânico, classificada de A a E A indica doença grave em atividade. E indica sistema nunca acometido Aplicação demorada e exige treino
DORIS 2021 Definição de remissão SLEDAI-2K clínico igual a zero, avaliação global do médico abaixo de 0,5 na escala de 0 a 3, e prednisona de 5 mg por dia ou menos. Antimaláricos, imunossupressores e biológicos estáveis são permitidos Meta ideal, alcançada por uma minoria dos pacientes
LLDAS Estado de baixa atividade de doença SLEDAI-2K de 4 ou menos sem atividade de órgão maior e sem febre, sem nova atividade em relação à avaliação anterior, avaliação global do médico de 1 ou menos na escala de 0 a 3, e prednisona de 7,5 mg por dia ou menos Meta alternativa quando a remissão não é atingível. Associada a menor acúmulo de dano
SLICC/ACR Damage Index Dano irreversível presente há pelo menos 6 meses, em 12 sistemas. Escala de 0 a 47 Só aumenta, nunca reduz Não distingue dano da doença de dano do tratamento, sobretudo do corticoide

A aplicação prática desses instrumentos em doença que não controla está detalhada na página sobre lúpus refratário.

Esclerose sistêmica

Instrumento Composição Faixas de corte Limitação
mRSS, escore cutâneo de Rodnan modificado Espessura cutânea palpada em 17 sítios, cada um de 0 a 3. Escala de 0 a 51 Valores mais altos indicam maior extensão e espessamento. Variação de 3 a 5 pontos costuma ser considerada clinicamente relevante Depende do examinador. Não reflete acometimento pulmonar, renal ou cardíaco
Índice de atividade EUSTAR Composto com itens cutâneos, vasculares, articulares, pulmonares e laboratoriais Valores mais altos indicam doença ativa Pouco usado fora de centro de referência
Capilaroscopia periungueal Padrões classificados como precoce, ativo e tardio O padrão tardio associa-se a maior risco de úlcera digital e de doença de órgão Não é escore numérico. Exige equipamento e examinador treinado
Função pulmonar e tomografia CVF, DLCO e extensão da doença intersticial Extensão acima de 20 por cento em tomografia, ou CVF reduzida, identifica doença extensa Mede um órgão, não a doença inteira

Vasculites

Instrumento Composição Faixas de corte Limitação
BVAS versão 3 Itens de atividade em nove sistemas, com separação entre doença nova e persistente. Pontuação máxima de 63 Zero caracteriza remissão de atividade Exige distinguir atividade de sequela, o que é a principal fonte de erro
VDI, índice de dano em vasculite Dano presente há pelo menos 3 meses, em 11 sistemas Acumula e não regride Inclui dano por corticoide, como catarata e diabetes
FFS, escore de cinco fatores Idade acima de 65 anos, sintomas cardíacos, acometimento gastrointestinal, insuficiência renal e ausência de sintomas otorrinolaringológicos Cada item vale 1 ponto. Pontuação maior associa-se a pior prognóstico Aplicável a poliarterite nodosa e vasculites com eosinofilia, não a todas

Miopatias inflamatórias

Instrumento Composição Faixas de corte Limitação
TIS, escore total de melhora ACR/EULAR Composto de seis medidas centrais do IMACS, ponderadas. Escala de 0 a 100 Melhora mínima a partir de 20. Moderada a partir de 40. Maior a partir de 60 Complexo de calcular na rotina de consultório
MMT-8 Força muscular manual em oito grupos. Escala de 0 a 80 Valores mais altos indicam melhor força Efeito de teto em doença leve
Enzimas musculares CPK, aldolase, TGO, TGP e DHL Acompanham atividade em parte dos pacientes Normais não excluem atividade, sobretudo em dermatomiosite amiopática e em doença de longa duração

A avaliação de miopatia com doença pulmonar exige seguimento funcional respiratório independente dos escores musculares, principalmente na presença de anticorpo anti-MDA5.

Síndrome de Sjögren

Instrumento Composição Faixas de corte Limitação
ESSDAI Atividade sistêmica em 12 domínios, com pesos distintos Valores mais altos indicam doença sistêmica ativa Não mede secura, fadiga nem dor, que são as queixas principais do paciente
ESSPRI Três perguntas ao paciente sobre secura, fadiga e dor. Escala de 0 a 10 Valor de 5 ou mais indica sintomas não aceitáveis para o paciente Não se correlaciona com o ESSDAI. Os dois medem coisas diferentes e precisam ser usados juntos

Gota, osteoporose, osteoartrite e fibromialgia

Condição Instrumento ou alvo Referência
Gota Ácido úrico sérico como alvo terapêutico Abaixo de 6 mg/dL como meta geral, e abaixo de 5 mg/dL na presença de tofos ou doença grave
Osteoporose T-score em densitometria Osteopenia entre -1 e -2,5. Osteoporose em -2,5 ou menos. FRAX estima risco de fratura em 10 anos e incorpora fatores clínicos
Osteoartrite WOMAC 24 itens de dor, rigidez e função, aplicados a joelho e quadril
Fibromialgia Critérios ACR 2016, com WPI e SSS Índice de dor generalizada de 7 ou mais com escala de gravidade de sintomas de 5 ou mais, ou índice de 4 a 6 com escala de 9 ou mais, por pelo menos 3 meses
Fibromialgia FIQR Questionário de impacto, útil para seguimento de resposta

Erros comuns de interpretação

Perguntas frequentes sobre escores em reumatologia

Qual é o melhor escore para artrite reumatoide?

Não há um melhor em termos absolutos. O CDAI é o mais prático em consulta porque dispensa exame laboratorial e permite decisão no mesmo dia. O SDAI e o DAS28 são mais usados em estudo. A recomendação operacional é escolher um instrumento e mantê-lo ao longo de todo o seguimento.

Meu DAS28 está alto, mas meus exames estão normais. Faz sentido?

Faz. Dois dos componentes do DAS28 são subjetivos: a contagem de articulações dolorosas e a avaliação global do paciente. Quando esses dois puxam o resultado e não há articulação edemaciada nem elevação de prova inflamatória, a hipótese principal é dor de origem não inflamatória, com fibromialgia associada entre as causas mais frequentes.

Qual a diferença entre remissão e baixa atividade?

Remissão significa ausência de atividade detectável pelo instrumento usado. Baixa atividade admite atividade residual pequena e dose baixa de corticoide. Em lúpus, a diferença é formalizada: DORIS define remissão, LLDAS define baixa atividade. A remissão é a meta preferencial, e a baixa atividade é a meta aceitável quando a remissão não é alcançável.

Escore de atividade serve para fechar diagnóstico?

Não. Escores de atividade pressupõem que o diagnóstico já está estabelecido. Instrumentos diagnósticos e de classificação são outros, e mesmo esses, como os critérios EULAR/ACR de 2019 para lúpus, foram desenhados para padronizar estudos e não para diagnosticar um paciente individual.

Por que meu médico pede que eu preencha questionários toda consulta?

Porque a estratégia de tratar por meta exige medida repetida. Sem medida seriada não é possível dizer se o tratamento atingiu o alvo, e a decisão de manter ou trocar passa a ser tomada por impressão. O questionário leva poucos minutos e é o que sustenta essa decisão.

SLEDAI zero significa que o lúpus sumiu?

Significa que não há atividade detectável naquele momento pelo instrumento. A doença permanece passível de reativação e o acompanhamento continua. Além disso, o SLEDAI-2K clínico exclui anti-DNA e complemento, então um paciente pode ter SLEDAI clínico zero com atividade sorológica em curso.

O que é tratar por meta em reumatologia?

É definir previamente um alvo mensurável, medir a atividade em intervalos fixos, e ajustar o tratamento sempre que o alvo não for atingido dentro do prazo estabelecido. O alvo preferencial é remissão. Quando não é viável, o alvo passa a ser baixa atividade sustentada.

Índice de dano pode melhorar?

Não. Instrumentos como o SLICC/ACR em lúpus e o VDI em vasculite registram lesão irreversível e apenas acumulam. Por isso o objetivo do tratamento é impedir que eles subam, o que inclui limitar a exposição a corticoide, já que parte do dano medido vem do próprio tratamento.

Sobre o autor

Dr. Henrique Helson Herter Dalmolin
CRM/SP 211.167 | RQE 98901

Médico reumatologista. Residência em Clínica Médica pelo Hospital de Clínicas da UFPR e em Reumatologia pelo HC-FMUSP. Professor na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Investigador Principal de protocolos internacionais de terapia celular em doenças autoimunes. Membro das comissões de Artrite Reumatoide, Biotecnologia e Doenças Raras da Sociedade Brasileira de Reumatologia.

ORCID | Currículo Lattes | Google Scholar

Conteúdo escrito e revisado por Dr. Henrique Dalmolin. Última revisão: setembro de 2026.

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Aviso

Esta página tem caráter informativo e educativo, destinada a profissionais de saúde e a pacientes que desejam entender os instrumentos usados em seu acompanhamento. Pontos de corte podem sofrer revisão por sociedades científicas. Não substitui a avaliação médica individualizada.