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Escores em reumatologia servem para medir atividade de doença, função e dano de forma reprodutível, e para permitir a estratégia de tratar por meta. Eles não fazem diagnóstico. Um escore alto em paciente sem doença inflamatória mede outra coisa, geralmente dor crônica, fibromialgia associada ou dano estrutural já estabelecido. Esta página reúne os instrumentos usados na prática, o que cada um mede, as faixas de corte e onde cada um falha.
- Para que servem: definir a meta do tratamento, decidir quando trocar de linha e documentar resposta ao longo do tempo.
- O que eles não fazem: diagnóstico, previsão individual de prognóstico e substituição do exame físico.
- Erro mais comum: confundir atividade inflamatória com dano acumulado ou com dor de origem não inflamatória.
- Autoria: Dr. Henrique Dalmolin, médico reumatologista, CRM-SP 211.167, RQE 98901.
Neste guia
- Como ler um escore
- Artrite reumatoide
- Espondiloartrite axial
- Artrite psoriásica
- Lúpus eritematoso sistêmico
- Esclerose sistêmica
- Vasculites
- Miopatias inflamatórias
- Síndrome de Sjögren
- Gota, osteoporose, osteoartrite e fibromialgia
- Erros comuns de interpretação
- Perguntas frequentes
Como ler um escore
Três categorias de instrumento respondem a perguntas diferentes e não se substituem.
- Atividade. Mede inflamação em curso. É o que responde a tratamento e o que define troca de linha. Exemplos: DAS28, SLEDAI-2K, ASDAS, BVAS.
- Função e sintoma relatado pelo paciente. Mede impacto na vida. Pode permanecer alterado mesmo com atividade zerada. Exemplos: HAQ, BASFI, ESSPRI.
- Dano. Mede lesão irreversível acumulada, de qualquer causa, inclusive do tratamento. Não volta com imunossupressão. Exemplos: SLICC/ACR, VDI.
Critérios de classificação, como os critérios EULAR/ACR de 2019 para lúpus ou os critérios ACR/EULAR de 2010 para artrite reumatoide, existem para padronizar populações de estudo. Não são critérios diagnósticos, e paciente que não pontua pode ter a doença.
Artrite reumatoide
| Instrumento | Composição | Faixas de corte | Limitação |
|---|---|---|---|
| DAS28-VHS | Contagem de 28 articulações dolorosas e edemaciadas, VHS e avaliação global do paciente | Remissão abaixo de 2,6. Baixa de 2,6 a 3,2. Moderada acima de 3,2 até 5,1. Alta acima de 5,1 | Inclui provas de fase aguda e avaliação global, o que superestima atividade em quem tem dor crônica associada. Não avalia pés e tornozelos |
| DAS28-PCR | Mesma estrutura, com PCR no lugar do VHS | Tende a gerar valores menores. O corte de remissão usualmente proposto é abaixo de 2,4 | Usar os cortes do DAS28-VHS no DAS28-PCR classifica como remissão quem ainda tem atividade |
| CDAI | Articulações dolorosas e edemaciadas, avaliação global do paciente e do médico. Sem exame laboratorial. Escala de 0 a 76 | Remissão até 2,8. Baixa até 10. Moderada até 22. Alta acima de 22 | Não captura inflamação sistêmica sem sinovite evidente |
| SDAI | Mesmos itens do CDAI mais PCR. Escala de 0 a 86 | Remissão até 3,3. Baixa até 11. Moderada até 26. Alta acima de 26 | Depende de coleta laboratorial no dia |
| Remissão booleana ACR/EULAR | Critério dicotômico: articulações dolorosas, edemaciadas, PCR e avaliação global do paciente | Todos os quatro itens em 1 ou menos. A revisão de 2022 flexibilizou a avaliação global para 2 ou menos | Muito exigente. A avaliação global do paciente é o item que mais impede o alcance, frequentemente por dor não inflamatória |
| HAQ-DI | Capacidade funcional em 20 itens de atividades diárias. Escala de 0 a 3 | Quanto maior, pior a função. Acima de 1 indica limitação relevante | Mede função, não inflamação. Permanece alterado com dano estabelecido |
| RAPID3 | Apenas relatado pelo paciente: função, dor e avaliação global. Escala de 0 a 30 | Quase remissão até 3. Baixa até 6. Moderada até 12. Alta acima de 12 | Não substitui a contagem articular quando há dúvida sobre sinovite |
Espondiloartrite axial
| Instrumento | Composição | Faixas de corte | Limitação |
|---|---|---|---|
| BASDAI | Seis perguntas sobre fadiga, dor axial, dor periférica, entesite e rigidez matinal. Escala de 0 a 10 | Valor igual ou acima de 4 caracteriza doença ativa | Totalmente subjetivo. Sofre forte influência de fibromialgia associada |
| ASDAS-PCR | Combina itens do BASDAI com PCR, com pesos definidos | Inativa abaixo de 1,3. Baixa de 1,3 até menos de 2,1. Alta de 2,1 a 3,5. Muito alta acima de 3,5 | Requer PCR. É o instrumento preferido para decisão terapêutica por incorporar medida objetiva |
| ASDAS, variação | Diferença entre duas medidas | Melhora clinicamente importante a partir de 1,1. Melhora maior a partir de 2,0 | Exige medida basal registrada |
| BASFI | Função em dez itens | Escala de 0 a 10 | Mede função, não atividade |
| BASMI | Mobilidade axial medida ao exame físico: Schober, distância tragus-parede, rotação cervical, flexão lateral e distância intermaleolar | Escala de 0 a 10 | Reflete dano e rigidez estrutural, não inflamação atual |
Artrite psoriásica
| Instrumento | Composição | Faixas de corte | Limitação |
|---|---|---|---|
| DAPSA | Articulações dolorosas e edemaciadas em 66 e 68 pontos, dor, avaliação global do paciente e PCR | Remissão até 4. Baixa de 5 a 14. Moderada de 15 a 28. Alta acima de 28 | Cobre apenas o domínio articular periférico. Ignora pele, eixo axial, dactilite e entesite |
| MDA | Sete critérios: articulações dolorosas, edemaciadas, PASI ou área corporal acometida, dor, avaliação global, HAQ e entesite | Cinco dos sete critérios cumpridos. Atingir os sete define VLDA, atividade muito baixa | Mistura domínios com pesos implícitos. Um paciente pode cumprir cinco itens com pele significativamente ativa |
| PASI | Extensão e gravidade da psoríase cutânea. Escala de 0 a 72 | PASI 75 e PASI 90 indicam melhora de 75 e 90 por cento em relação ao basal | Pouco sensível em doença de pequena extensão mas de alto impacto, como couro cabeludo, unhas e região genital |
| LEI e SPARCC | Índices de entesite por sítios palpados | LEI avalia 6 sítios. SPARCC avalia 16 | Dor à palpação de êntese ocorre também em fibromialgia, o que gera falso-positivo |
| LDI | Índice de dactilite por circunferência e sensibilidade digital | Comparação com o dedo contralateral | Pouco usado fora de estudo |
Lúpus eritematoso sistêmico
| Instrumento | Composição | Faixas de corte ou definição | Limitação |
|---|---|---|---|
| SLEDAI-2K | 24 itens clínicos e laboratoriais em janela de 30 dias. Escala de 0 a 105 | Valores de 6 ou mais costumam indicar atividade ao menos moderada | Não captura melhora parcial dentro de um mesmo item. Itens graves e leves somam de forma desproporcional |
| SLEDAI-2K clínico | Mesmo instrumento sem anti-DNA e complemento | Usado nas definições de remissão | Ignora atividade sorológica isolada, que ainda assim prediz reativação |
| BILAG | Atividade por sistema orgânico, classificada de A a E | A indica doença grave em atividade. E indica sistema nunca acometido | Aplicação demorada e exige treino |
| DORIS 2021 | Definição de remissão | SLEDAI-2K clínico igual a zero, avaliação global do médico abaixo de 0,5 na escala de 0 a 3, e prednisona de 5 mg por dia ou menos. Antimaláricos, imunossupressores e biológicos estáveis são permitidos | Meta ideal, alcançada por uma minoria dos pacientes |
| LLDAS | Estado de baixa atividade de doença | SLEDAI-2K de 4 ou menos sem atividade de órgão maior e sem febre, sem nova atividade em relação à avaliação anterior, avaliação global do médico de 1 ou menos na escala de 0 a 3, e prednisona de 7,5 mg por dia ou menos | Meta alternativa quando a remissão não é atingível. Associada a menor acúmulo de dano |
| SLICC/ACR Damage Index | Dano irreversível presente há pelo menos 6 meses, em 12 sistemas. Escala de 0 a 47 | Só aumenta, nunca reduz | Não distingue dano da doença de dano do tratamento, sobretudo do corticoide |
A aplicação prática desses instrumentos em doença que não controla está detalhada na página sobre lúpus refratário.
Esclerose sistêmica
| Instrumento | Composição | Faixas de corte | Limitação |
|---|---|---|---|
| mRSS, escore cutâneo de Rodnan modificado | Espessura cutânea palpada em 17 sítios, cada um de 0 a 3. Escala de 0 a 51 | Valores mais altos indicam maior extensão e espessamento. Variação de 3 a 5 pontos costuma ser considerada clinicamente relevante | Depende do examinador. Não reflete acometimento pulmonar, renal ou cardíaco |
| Índice de atividade EUSTAR | Composto com itens cutâneos, vasculares, articulares, pulmonares e laboratoriais | Valores mais altos indicam doença ativa | Pouco usado fora de centro de referência |
| Capilaroscopia periungueal | Padrões classificados como precoce, ativo e tardio | O padrão tardio associa-se a maior risco de úlcera digital e de doença de órgão | Não é escore numérico. Exige equipamento e examinador treinado |
| Função pulmonar e tomografia | CVF, DLCO e extensão da doença intersticial | Extensão acima de 20 por cento em tomografia, ou CVF reduzida, identifica doença extensa | Mede um órgão, não a doença inteira |
Vasculites
| Instrumento | Composição | Faixas de corte | Limitação |
|---|---|---|---|
| BVAS versão 3 | Itens de atividade em nove sistemas, com separação entre doença nova e persistente. Pontuação máxima de 63 | Zero caracteriza remissão de atividade | Exige distinguir atividade de sequela, o que é a principal fonte de erro |
| VDI, índice de dano em vasculite | Dano presente há pelo menos 3 meses, em 11 sistemas | Acumula e não regride | Inclui dano por corticoide, como catarata e diabetes |
| FFS, escore de cinco fatores | Idade acima de 65 anos, sintomas cardíacos, acometimento gastrointestinal, insuficiência renal e ausência de sintomas otorrinolaringológicos | Cada item vale 1 ponto. Pontuação maior associa-se a pior prognóstico | Aplicável a poliarterite nodosa e vasculites com eosinofilia, não a todas |
Miopatias inflamatórias
| Instrumento | Composição | Faixas de corte | Limitação |
|---|---|---|---|
| TIS, escore total de melhora ACR/EULAR | Composto de seis medidas centrais do IMACS, ponderadas. Escala de 0 a 100 | Melhora mínima a partir de 20. Moderada a partir de 40. Maior a partir de 60 | Complexo de calcular na rotina de consultório |
| MMT-8 | Força muscular manual em oito grupos. Escala de 0 a 80 | Valores mais altos indicam melhor força | Efeito de teto em doença leve |
| Enzimas musculares | CPK, aldolase, TGO, TGP e DHL | Acompanham atividade em parte dos pacientes | Normais não excluem atividade, sobretudo em dermatomiosite amiopática e em doença de longa duração |
A avaliação de miopatia com doença pulmonar exige seguimento funcional respiratório independente dos escores musculares, principalmente na presença de anticorpo anti-MDA5.
Síndrome de Sjögren
| Instrumento | Composição | Faixas de corte | Limitação |
|---|---|---|---|
| ESSDAI | Atividade sistêmica em 12 domínios, com pesos distintos | Valores mais altos indicam doença sistêmica ativa | Não mede secura, fadiga nem dor, que são as queixas principais do paciente |
| ESSPRI | Três perguntas ao paciente sobre secura, fadiga e dor. Escala de 0 a 10 | Valor de 5 ou mais indica sintomas não aceitáveis para o paciente | Não se correlaciona com o ESSDAI. Os dois medem coisas diferentes e precisam ser usados juntos |
Gota, osteoporose, osteoartrite e fibromialgia
| Condição | Instrumento ou alvo | Referência |
|---|---|---|
| Gota | Ácido úrico sérico como alvo terapêutico | Abaixo de 6 mg/dL como meta geral, e abaixo de 5 mg/dL na presença de tofos ou doença grave |
| Osteoporose | T-score em densitometria | Osteopenia entre -1 e -2,5. Osteoporose em -2,5 ou menos. FRAX estima risco de fratura em 10 anos e incorpora fatores clínicos |
| Osteoartrite | WOMAC | 24 itens de dor, rigidez e função, aplicados a joelho e quadril |
| Fibromialgia | Critérios ACR 2016, com WPI e SSS | Índice de dor generalizada de 7 ou mais com escala de gravidade de sintomas de 5 ou mais, ou índice de 4 a 6 com escala de 9 ou mais, por pelo menos 3 meses |
| Fibromialgia | FIQR | Questionário de impacto, útil para seguimento de resposta |
Erros comuns de interpretação
- Tratar o escore em vez do paciente. DAS28 e BASDAI sobem com dor crônica difusa sem sinovite. Escalar imunossupressão nesse cenário adiciona risco sem benefício.
- Usar o corte errado para a variante certa. Aplicar os cortes do DAS28-VHS a um DAS28-PCR classifica como remissão quem ainda tem doença ativa.
- Confundir dano com atividade. Proteinúria residual por glomeruloesclerose, deformidade articular e limitação de mobilidade axial pontuam em instrumentos de função, mas não respondem a imunossupressão.
- Medir uma vez. Escore isolado tem pouco valor. O que orienta conduta é a trajetória entre medidas feitas com o mesmo instrumento.
- Trocar de instrumento no meio do seguimento. Comparar um CDAI atual com um DAS28 antigo não produz informação.
- Ignorar o domínio que o escore não cobre. DAPSA em remissão com psoríase cutânea extensa é doença mal controlada.
Perguntas frequentes sobre escores em reumatologia
Qual é o melhor escore para artrite reumatoide?
Não há um melhor em termos absolutos. O CDAI é o mais prático em consulta porque dispensa exame laboratorial e permite decisão no mesmo dia. O SDAI e o DAS28 são mais usados em estudo. A recomendação operacional é escolher um instrumento e mantê-lo ao longo de todo o seguimento.
Meu DAS28 está alto, mas meus exames estão normais. Faz sentido?
Faz. Dois dos componentes do DAS28 são subjetivos: a contagem de articulações dolorosas e a avaliação global do paciente. Quando esses dois puxam o resultado e não há articulação edemaciada nem elevação de prova inflamatória, a hipótese principal é dor de origem não inflamatória, com fibromialgia associada entre as causas mais frequentes.
Qual a diferença entre remissão e baixa atividade?
Remissão significa ausência de atividade detectável pelo instrumento usado. Baixa atividade admite atividade residual pequena e dose baixa de corticoide. Em lúpus, a diferença é formalizada: DORIS define remissão, LLDAS define baixa atividade. A remissão é a meta preferencial, e a baixa atividade é a meta aceitável quando a remissão não é alcançável.
Escore de atividade serve para fechar diagnóstico?
Não. Escores de atividade pressupõem que o diagnóstico já está estabelecido. Instrumentos diagnósticos e de classificação são outros, e mesmo esses, como os critérios EULAR/ACR de 2019 para lúpus, foram desenhados para padronizar estudos e não para diagnosticar um paciente individual.
Por que meu médico pede que eu preencha questionários toda consulta?
Porque a estratégia de tratar por meta exige medida repetida. Sem medida seriada não é possível dizer se o tratamento atingiu o alvo, e a decisão de manter ou trocar passa a ser tomada por impressão. O questionário leva poucos minutos e é o que sustenta essa decisão.
SLEDAI zero significa que o lúpus sumiu?
Significa que não há atividade detectável naquele momento pelo instrumento. A doença permanece passível de reativação e o acompanhamento continua. Além disso, o SLEDAI-2K clínico exclui anti-DNA e complemento, então um paciente pode ter SLEDAI clínico zero com atividade sorológica em curso.
O que é tratar por meta em reumatologia?
É definir previamente um alvo mensurável, medir a atividade em intervalos fixos, e ajustar o tratamento sempre que o alvo não for atingido dentro do prazo estabelecido. O alvo preferencial é remissão. Quando não é viável, o alvo passa a ser baixa atividade sustentada.
Índice de dano pode melhorar?
Não. Instrumentos como o SLICC/ACR em lúpus e o VDI em vasculite registram lesão irreversível e apenas acumulam. Por isso o objetivo do tratamento é impedir que eles subam, o que inclui limitar a exposição a corticoide, já que parte do dano medido vem do próprio tratamento.
Sobre o autor
Dr. Henrique Helson Herter Dalmolin
CRM/SP 211.167 | RQE 98901
Médico reumatologista. Residência em Clínica Médica pelo Hospital de Clínicas da UFPR e em Reumatologia pelo HC-FMUSP. Professor na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Investigador Principal de protocolos internacionais de terapia celular em doenças autoimunes. Membro das comissões de Artrite Reumatoide, Biotecnologia e Doenças Raras da Sociedade Brasileira de Reumatologia.
ORCID | Currículo Lattes | Google Scholar
Conteúdo escrito e revisado por Dr. Henrique Dalmolin. Última revisão: setembro de 2026.
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Aviso
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